Crônicas

O Rio sangra

Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar crianças, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu”Darcy Ribeiro

Desde que me entendo por gente eu escuto, ouço e vejo  a mesma “fórmula” para combater a violência e o narcotráfico no estado do Rio, sobretudo, na capital: Matar!

E morre traficante, policial e todo ser vivente que ousar respirar no meio do fogo cruzado!

E morre o próprio Rio, envenenado!

Esta fórmula é por si só o fracasso já sabido e anunciado.

Os verdadeiros e grandes donos do negócio nunca são alcançados! Engravatados e graúdos, estão protegidos nos seus castelos e privilégios…

O Rio sangra! E sangram gerações de cariocas e fluminenses…

O Rio sangra! E sangra há bastante tempo!

Como se costuma dizer nas rodas de conversa de tantos e tantos lugares da cidade: chove-se no molhado e enxuga-se gelo!

Com isso, há décadas a violência assola o estado. E a coisa só piora!

Avenida Brasil interditada. Linha Vermelha interditada. As cenas de motoristas abaixados nas estradas por causa do tiroteio são fartas e fáceis de se achar. Os corpos empilhados nos becos e nos morros é rotina e se tornou banal. Mães chorando seus filhos é notícia de quase todo dia!

A violência no Rio virou banalidade! É assunto diário. Pisado e repisado! Reprisado!

O descaso das autoridades é revoltante!

O saudoso Darcy Ribeiro, homem das letras e das ações, criador do melhor projeto educacional que o estado e o Brasil já tiveram, os CIEPS, disse certa vez que se em 20 anos os governantes não construírem escolas, faltará dinheiro para construir presídios.

Darcy já alertava no final dos anos 80! O caminho passa pela educação. Crucial, fundamental, urgentemente necessária. A educação não é milagrosa e, sozinha, não surtirá qualquer efeito, mas sem ela é praticamente impossível pensar um país!

Darcy não foi ouvido.

A metáfora viva do descaso é ver aqui e ali em vários pontos do território fluminense algum CIEP (também chamado de Brizolão) arruinado, tomado pelo mato, pelo abandono, pelo tráfico…

Darcy não foi ouvido.

E muitos meninos e meninas do Rio tiveram suas infâncias interrompidas. Seja por uma bala perdida, seja pelo aliciamento da marginalidade.

Darcy não foi ouvido.

Ou melhor, foi solenemente ignorado.

Hoje, cercado por facções diversas e por milícias, o estado do Rio possui um “estado paralelo”! Este estado se sobrepõe ao oficial, tem suas próprias leis e sua própria dinâmica e, com seus tentáculos, envolve e absorve políticos e agentes públicos, tornando-se um problema cada vez mais complexo.

Darcy não foi ouvido.

Os professores fluminenses recebem o pior salário da federação. Escolas sucateadas. Dinheiro que some pelo ralo… Alunos com pouca ou nenhuma perspectiva! Educação não é prioridade!

E a massa de jovens no crime só aumenta e alimenta uma máquina…

A máquina de moer gente prossegue seu trabalho e sua função: matar!

O Rio sangra…

Campista Cabral

Campista Cabral, leitor assíduo dos portugueses Camões e Pessoa, do poetinha Vinícius, herdou deles o gosto pelo soneto. A condensação dos temas do cotidiano, assim como a reflexão sobre o fazer poético, parece procurar a sua existência empírica ou, nas palavras do poeta, um rosto perfeito, na estrutura do soneto. Admirador e também leitor obsessivo de Umberto Eco, Ítalo Calvino, José Cardoso Pires, Lobo Antunes, do mestre Machado de Assis e do moçambicano Mia Couto, retira dessas leituras o gosto pela metalinguagem, o prazer em trabalhar um espaço de discussão da criação literária em sua prosa. A palavra, a todo instante, é objeto base dos contos e das crônicas. A memória, o dia-a-dia, o amor, as sensações do mundo e os sentidos e significados da vida estão presos nos mistérios e assombros da palavra.

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